3 de abr. de 2011

Acordes do mal


Uma geração sobre o domínio do heavy metal
Por Alexandre Melo, jornalista

PUBLICADO NO JORNAL METAS (GASPAR/sc), EDIÇÃO DE 02/04/2011

Foto/Divulgação
Escrever sobre um tema o qual não se tem afinidade é um dos maiores desafios na vida de um jornalista. Muitos colegas torcem o nariz quando o editor passa uma pauta “enrascada”. Agora, quando se senta na frente do computador para escrever sobre um tema que se tem profunda simpatia, o texto flui com emoção e tudo fica mais fácil. Foi assim essa semana quando acordei e decidi escrever sobre heavy metal.
Não tão jovem quanto o tema, o desafio se tornou, para mim, ainda mais difícil, afinal, foi preciso entrar na cápsula do tempo para relembrar algumas das bandas e seus hits que embalaram meus doces anos de juventude. Ainda curto muito heavy metal, e admito que o solo “esganiçado” das guitarras soa aos meus ouvidos como uma sinfonia de Bethoven. Uma terapia musical após um dia de trabalho.
Mas vamos ao que interessa. A passagem de dois ícones do heavy metal pelo Brasil essa semana, o sessentão Ozzy Osbourne (ex-Black Sabbath) e a banda Iron Maiden, despertou nesse metaleiro quase aposentado uma enorme vontade de escrever sobre o mais radical estilo musical da história. E foi juntando informações aqui e ali que reuni fragmentos da história.
A primeira lição é não confundir rock’n roll com heavy metal. O rock’n roll é o “pai de tudo”. É o gênero musical, popularizado na década de 1950 por Elvis Presley, que estourou na década seguinte com The Beatles. O metal é mais recente. Surgiu, oficialmente, em meados dos anos 1970, na Inglaterra, e se espalhou pelo mundo a partir de 1980. Há quem defenda, e sou um deles, que os primeiros acordes das guitarras metálicas soaram ainda na década de 1960.
O heavy metal é um desmembramento do rock, uma música “ácida” com letras incompreensíveis, um barulho harmonioso e muita performance de palco. Antes de o heavy metal explodir, alguns precursores de destacaram: Jimi Hendrix, Janis Joplin e as bandas The Who, Deep Purple, Uriah Heep, VDO, Jethro Tull, The Kings e o próprio Pink Floyd, com um estilo de rock metálico progressivo. Prefiro não incluir Rolling Stones.
Afirmam alguns historiadores que a Black Sabbath é a primeira banda de heavy metal do mundo. Outros consideram Led Zeppelin e Depp Purple como os pais do estilo. A Black Sabbath foi a primeira banda a fazer um álbum completo e cheio de riffs complexos, acordes pesados e solos longos. Independente de quem seja o criador da criatura, a verdade é que essas bandas ainda são cultuadas no mundo, basta ver o público dos shows do Ozzy e do Iron Maiden.
No início dos anos 1970, a geração Woodstock, que pretendia mudar o mundo na base da paz, do amor, do LSD e do cigarrinho de maconha começou a dar lugar a outra que defendia o radicalismo por meio de uma música mais agressiva em termos de volume, machismo (as bandas eram todas formadas por homens) e performance de palco. Os vocais eram incompreensíveis e os solos de guitarra plasticamente infernais.
Na música metal, se vai do som pesado ao lento várias vezes, e quem melhor fazia essa passagem era a banda inglesa Led Zeppelin em canções marcantes com Baby I’m Gonna Leave You, Black Dog e a emotiva Starway to Heaven.
Difícil era encontrar conectividade nas letras das canções, porém os instrumentos e a performance de palco sustentavam o espetáculo. Aliás, todo o bom metaleiro quebrava sua guitarra ao final do show.
O heavy metal suscitou grandes temas da contracultura da época como o comunismo, religiões opressoras, guerras, sexo e, claro, drogas, muita droga. Havia a necessidade naquele momento de se quebrar paradigmas.
A juventude passou a conhecer o lado obscuro da humanidade. Para os mais conservadores, tudo não passava de um “pacto com o demônio”, e motivos não faltavam para se pensar assim. Em Highway to Hell (Autoestrada para o Inferno), do AC/DC, a letra diz: Ei Satanás! Paguei minhas dívidas tocando em uma banda de rock’n roll.
E as loucuras não param por aí. Ozzy chegou a morder um morcego vivo no palco. Angus Young guitarrista do AC/DC, passava um show inteiro correndo e pulando no palco. Drogas? A vestimenta escolar da banda dava ares infantis às estripulias e levava o público ao delírio. Exagero à parte, eu prefiro falar em psicodelismo. Grandes vocalistas nunca faltaram no heavy metal, e cito os da minha preferência: Ian Gillan (Deep Purple), Dave Covardale (Deep Purple), Roberto Plant (Led Zeppelin), para mim, o melhor, Roger Waters (Pink Floyd), Ozzy Osbourne (Black Sabbath) e Bon Scott (AC/DC). No heavy metal, as músicas são também um louvor aos “deuses do metal” (ou será do mal?), como forma de mostrar fidelidade ao estilo. Quem é metaleiro não ouve outra coisa sob pena de ser banido da irmandade. Penso que fiquei no purgatório.

Um estilo puxa o outro
Nada sobrevive sozinho no rock’n roll. A partir do heavy metal outros estilos musicais ou subgêneros surgiram. A lista é grande: black metal, death metal, doom metal, folk metal, grove metal, power metal, prog metal, speed metal, trash metal e gothic metal, entre outros. Um dos pontos interessantes do heavy metal é o público. Pessoas que se unem a uma enorme adoração. Elas não reconhecem outros gêneros e estilos. Um público marcado por roupas pretas, cabelos longos, correntes na cintura, unhas e rostos pintados como se fossem para uma guerra contra a sociedade. E não iam?

No Brasil
O Brasil não ficou de fora da febre do metal, e muitas bandas surgiram na época. Entre elas, podemos destacar duas. Angra (metal melódico) e Sepultura (trash metal), esta última grande sucesso até os dias de hoje. A febre do metal no Brasil coincidiu com a reabertura política. O estilo agressivo e despojado de preconceitos dos metaleiros influenciou toda uma geração. Essa contracultura teve lá seu preço, as drogas se misturaram ao mundo metal. E o rótulo ficou: “quem gosta de heavy metal é viciado em drogas”. Porém, havia, sim, admirados do heavy metal que participaram dessa efervescência sóciomusical apenas curtindo a arte de um grande estilo musical, sem exageros e radicalismos.

Origem militar
O termo heavy metal é polêmico, e muitos pesquisadores não sabem precisar quando ele surgiu. É possível que nem tenha relação com a música. A expressão “heavy metal” tinha um significado militar e científico, e a sua utilização é constatada com freqüência em diversos estudos de décadas anteriores à explosão do estilo musical.
No início dos anos 1930, a expressão foi cunhada para denominar armas de longo alcance e precisão. Porém, segundo Willian Morris, autor de “The Dictionary of Word and Phrase Origins”, o sentido dado ia além e tratava de tanques de guerra considerados então as sensações em aspectos tecnológicos.
Para quem tem interesse em saber mais sobre a história do heay metal, a dica é assistir ao documentário “Metal: Uma Jornada pelo mundo do Heavy Metal (2005). Outra dica é o filme Rock Star (2001) que conta história de uma das mais polêmicas bandas de heavy metal, a Judas Priest. O grupo chegou a processar o produtor do filme, Sthephen Herke, por entender que essa não é a história da banda.

27 de mar. de 2011

O racismo no primeiro mundo


A Escócia, adversário da Seleção Brasileira desta manhã de domingo era muito fraco. Por isso o amistoso foi chato, entediante para uma manhã de folga. Porém, a notícia, dissimulada pela grande imprensa que cobriu este confronto futebolístico caça-níquel foi mais uma demonstração de racismo por parte de torcedores ingleses. No intervalo do jogo, quando os jogadores brasileiros se retiravam para o vestiário uma banana foi atirada ao campo.Uma vergonha, uma atitude segregacionista e condenável em todos os aspectos.
A pergunta que me ocorre é a seguinte: vale a pena levar a nossa Seleção Canarinho, patrimônio nacional e um dos orgulhos do povo brasileiro, para jogar amistosos na Europa? Eu entendo que não. Nada é mais importante para uma Nação do que respeito, seja ele no campo do esporte, da política, da música e outros afins. Os ingleses e outros países onde o racismo é mais forte não merecem assistir ao vivo o melhor futebol do mundo. E não adianta contra argumentar que este foi um caso isolado que não representa a opinião do povo inglês. A verdade é que os crimes de racismo continuam cada vez mais comuns na Europa, na medida em que povos de outros continentes passam a ocupar maior espaço em vários segmentos, entre eles o futebol. Brasileiros, africanos, hispânicos, entre outros se destacam no esporte.
Levar a Seleção Brasileira para amistosos na Europa só beneficia o bolso da Sra CBF e do Sr. Ricardo Teixeira que se perpetuou no poder da entidade representativa do futebol do nosso País. É preciso dar um basta, pedir a intervenção do governo federal para que episódios tristes e lamentáveis como o deste domingo não se repitam mais. Nós, brasileiros, não merecemos este tipo de tratamento.

21 de mar. de 2011

A lixeira da futilidade

Na era da comunicação integrada e em tempo real, da cable TV e suas mais de 100 opções, as pessoas podem escolher a informação que vão consumir. A preferência ainda é pelo lixo televisivo. Programas de gosto duvidoso não são novidades na TV brasileira. As chanchadas da década de 1970 eram ruins e os programas de auditório sofríveis. Por que continuamos a consumir tanta porcaria?

Tecnologia. O lixo eletrônico está mais bem produzido, mascarado, virou sinônimo de grande audiência e de lucro para as emissoras de TV que investem pesado na produção deste tipo de entretenimento. E isto preocupa quem prefere programas que estimulem o debate, trazendo à baila temas atuais e de relevância no contexto social. Este tipo de proposta é cada vez mais rara na TV brasileira. E quando abre-se o espaço na grade, os horários  são colados aos do corujão, ou seja, inacessíveis ao trabalhador.

Hoje, as bundas das "panicats" ou a exploração emocional da miséria do cotidiano são mais importantes para a TV brasileira que a crise no Oriente Médio. São dezenas de programas de excelente produção e nenhum conteúdo. "Vende-se" desde o prazer visual até a realização de sonhos impossíveis para milhões de brasileiros, como a reforma da casa, do carro ou a viagem inesquecível. E tem lista de espera para patrocinadores.

O país vive o milagre da liberdade. A TV brasileira é a válvula de escape do desejo latente da felicidade. A vida real é transportada para dentro da casa do telespectador. Assim, programas como o reality Show Big Brother Brasil vão se mantendo com picos de audiência acima da média. E lá se vão mais de uma década de sucesso. Não vejo, não ouço e recuso-me a discutir quem deve ou não deixar a casa, mas diante de tanto marketing permito-me admtir que o BBB é um fenômeno de audiência, o programa de entretenimento de maior sucesso da história da TV brasileira. E não é apenas a audiência que mantém o BBB no ar, mas principalmente a questão financeira. Independente do que se faz e se diz dentro da casa dos brothers, o programa vai se mantendo como o líder de audiência na lixeira da futilidade.

12 de nov. de 2010

MEC nota zero

Como acreditar que a educação no Brasil vai melhorar se as pessoas que estão no comando do órgão máximo do ensino no Brasil, o Ministério da Educação (MEC), não conseguem produzir, sem falhas, um concurso da importância do Enem - Exame Nacional do Ensino Médio. Educação é coisa séria; é o bem imaterial mais importante de uma nação. Portanto, não se coloca as decisões nas mãos de pessoas simplesmente porque elas estão politicamente alinhadas ao governo. Este, aliás, é o grande mal da administração pública.
O que se viu na prova do Enem 2010 foi um conjunto de trapalhadas que beiram as raias do ridículo, do despreparo, da falta de conhecimento e de responsabilidade que em nada condizem com a posição que o Brasil almeja no cenário internacional. 
A culpa pelos erros grosseiros na prova do Enem, se diz, é de quem imprimiu as provas, porém os maiores culpados estão nos gabinetes do MEC, em Brasília. Em nenhum momento essas pessoas se preocuparam em fiscalizar ou delegar a seus assessores o controle rigoroso sobre a qualidade do material que estava sendo preparado, deixou-se nas mãos da empresa terceirizada a responsabilidade pela impressão e distribuição das provas que foram entregues a milhares de estudantes que participaram do concurso. Isto sem falar da segurança, já que existem fortes indícios de que houve, novamente, quebra de sigilo. 
Mesmo sabendo da importância que o concurso representa na vida dos estudantes, as pessoas do MEC não se preocuparam com simples detalhes, como ler e reler o material produzido. Decididamente não estamos falando de um concurso qualquer, mas do futuro do Brasil que começa, para a maioria dos jovens, com o ingresso em uma universidade. 
No seu mais recente comentário, o Ministro da Educação, Fernando Haddad, afirmou que apenas 200 estudantes haviam sido prejudicados, ao mesmo tempo em que anunciou que pedirá desculpas à nação pelos erros do Enem. Um contraditório, pois se foram apenas 200 num universo de milhões, os problemas não foram assim tão graves como se percebe. Na verdade, o ministro tenta confundir a opinião pública. A sociedade quer respostas para tamanha incompetência e a revisão da metodologia de elaboração das provas.
Artigo publicado na edição de sábado (13/11) do Jornal Metas, página 2

7 de nov. de 2010

A ponte

A interferência da Justiça no caso da ponte Hercílio Deeke mostra o quando o poder público é omisso na defesa dos interesses do cidadão. Há quase uma década, Gaspar se debate contra um problema extremamente grave. Se a ponte for mesmo interditada, inclusive para a passagem de pedestres, vai gerar um enorme problema social, como o desemprego e a transferência de muitas empresas para outros municípios. Com sua estrutura comprometida, a ponte já se configura em uma situação extremamente grave, assim como é o trânsito da região central da cidade. O prefeito, Celso Zuchi, e seus assessores deveriam trabalhar para que fosse instaurado o estado de calamidade pública na cidade. Somente assim, as autoridades federais iriam se sensibilizar e liberar os tão propagados recursos para restaurar a combalida Hercílio Deeke. Ao invés disso, empurraram o problema com a barriga, anunciaram obras gigantescas, como a construção da Ponte de Vale. Esta não é a nossa prioridade. Não queremos uma ponte asfaltada, com ciclovia e quatro pistas. Queremos, na nossa humildade de um povo preterido em praticamente tudo nos últimos anos, uma simples pontezinha, um pontilhão que seja para que possamos atravessar com segurança, levando nossos filhos e o progresso de um lado a outro, mais nada do que isso. Chega de fantasias, de projetos faraônicos. Queremos de volta a nossa ponte.(Editorial escrito para o Jornal Metas em 06/11/2010