12 de out. de 2010

Um palhaço útil em Brasília

O inocente útil palhaço Tiririca, ou o deputado eleito Francisco Everardo da Silva, foi o mais votado do Brasil para a Câmara Federal nas eleições de 3 de outubro. Vira e mexe e a mídia  exibe brasileiros com bolas vermelhas no nariz em sinal de protesto contra o que consideram uma palhaçada os políticos brasileiros. E de tanto achar que Brasília está sob uma enorme lona, o eleitor acabou elegendo um palhaço de verdade para comandar o circo. Um voto de protesto ou o brasileiro gosta mesmo de eleger pessoas exóticas? Foi assim quando o macaco Tião recebeu 400 mil votos para prefeito do Rio de Janeiro em 1988, em plena redemocratização do país. A candidatura de Tião foi lançada de maneira não-oficial pela turma do Casseta & Planeta, que na época fazia um humor bem mais inteligente que o atual. Logicamente que o macaco Tião não chegou a assumir a sua cadeira na Câmara Federal, embora tivesse todo o direito, mas a expressiva votação foi um sinal de que o eleitor depois de duas décadas de ditadura continuava não querendo votar ou não acreditando em seus políticos.
Já na década de 1990 surgiu outro personagem tão exótico quanto o Tião: o hipopótamo Cacareco que também recebeu milhares de votos em São Paulo. Antes que o eleitor brasileiro elegesse toda a fauna brasileira, a urna eletrônica chegou para colocar ordem na casa.  A nova ordem era votar em quem realmente pudesse trabalhar pelo Brasil. E de tanto procurar por este políticos, os brasileiros passaram a apostar em figuras exóticas e celebridades. O estilista aposentado Clodovil Hernandes (já falecido) é o caso mais recente, antes do palhaço Tiririca, de como o eleitor está descontente com a classe política. Em 2006, Clodovil foi o mais votado em São Paulo para a Câmara Federal, com mais de 1,5 milhão de votos.
A fórmula parece que foi copiada em 2010, amparada em uma legislação eleitoral ultrapassada que permite a qualquer cidadão, mesmo um analfabeto político, se candidatar a um cargo eletivo no Brasil. Tiririca fazia as crianças sorrirem, hoje faz a alegria de meia dúzia de políticos de um partido tão esdrúxulo quando a sua candidatura. O PR, partido pelo qual Tiririca se elegeu, leva para Brasília outros três parlamentares que sequer conseguiriam se eleger síndico de prédio.
Em Brasília, não existe nada que possa nos divertir, nem mesmo as estripulias de um palhaço.  Tiririca vai ocupar um espaço que não é seu e embolsar uma boa quantia em dinheiro de impostos pago pelo povo,. Como ele mesmo disse durante sua campanha, pretende descobrir o que o faz um deputado para depois contar aos seus mais de 1,3 milhão de eleitores. O Brasil não precisa, não merece e não deveria ter um analfabeto político na Câmara de Deputados. No entanto, o sistema eleitoral permite que Tiriricas, Tiãos e Cacarecos façam e votem as leis que vão decidir o futuro de uma das maiores nações do mundo.